Instruções para compor um folk
22/02/2012Na Teodoro, me parece, nenhum momento é insignificante o bastante, como queríamos crer. A qualquer instante, entre vendedores de doces ou filmes pirata & algum grupo fazendo piadas com a nova estrela do futebol paulista, encontramos aquela garota com olhos cheios d’água carregando um pequeno vaso com flores da Nicarágua. Então ficamos em dúvida se deixamos na secura do ar aquela memória triste ou se a encharcamos com cerveja gelada – naquela lanchonete que vende os salgadinhos mais vagabundos da cidade, mas tem as mesas limpas & três ou quatro belas reproduções de Rothko. Inevitável não lembrar daqueles folks que falam dessa vida maltratada que levamos neste planeta. Aliás, para retomar aquele assunto sobre a composição de um folk, penso que, para compor um, precisamos do repouso pós-degustação das inflorescências femininas do cânhamo, da Berenice das insônias de Murilo, de rimar kiddin’ you com didn’t you. Precisamos de oferendas & arranjos florais. Precisamos nos imaginar Jean-Luc Godard vendendo, em um qualquer sebo parisiense, os livros autografados por Valéry roubados ao valerianum (a ilustre biblioteca de seu avô). O tema é tão antigo quanto um sorriso, homens decapitados & ervas daninhas. Tão conhecido quanto a caganeira de Pedro I, a gagueira de George VI & a demência do Führer. (Aliás, rimar esfíncter com Hitler daria uma boa fluidez à composição, além de funcionar como uma poderosa alegoria). Antes de cruzar a avenida & entrar na Oscar Freire, imagino que as pernas nuas da mulher amada poderão dar um perfume acústico à melodia. Mas, sabe que é estranho compor um folk? Há uma certa urgência, um desmentir, uma espécie de não-lugar fantasmagórico. Veja só: o que terá nomeado primeiro o primeiro poeta? Ao percorrer com as retinas alumbradas Vieira da Silva conseguiremos desadoecer a lâmina que insiste renomear nossa jugular? Que ansiedade porta um poliedro de fogo quando sabemos que poliedros de fogo não nos servem mais como inspiração? E, nesta praia de ossos, que inspiração? Não tendo como responder a isso, é necessário sujar os dedos de sangue. Não se deve ter medo das metáforas, já que a apregoada “morte da metáfora” é já, por si, uma metáfora. Se isso não for possível, talvez um sorvete de frutas vermelhas que, derretendo, escorra sua calda açucarada sobre a mão esquerda num domingo de sol enquanto se diz à namorada que nem os mais altos & complexos malabarismos da mente valem uma violeta. Mas, para ser mais preciso, insisto, seria mais bacana sangue. Ser duro (às vezes, cruel). Saber que a tristeza é a primeira flor do tempo, que nela é que, queiramos ou não, viveremos intensamente o suicídio de nossos desejos. Um a um. Então a morte novamente dará as cartas. Isso nos dissolverá. Um carinho ausente – por pura escolha. É muito válido, para compor um folk, uma nova reunião. & outra. Mais outra. De versos, de beijos, de amigos, de nãos, de figurinhas da Copa da Espanha. Ter a perfeita noção de que as pessoas a quem se destina o folk estarão interessadas exclusivamente em situações inesquecíveis. Pois quem já tocou a pele de seda & vidro moído da vida sabe que só o alumbramento vale o vexame de definhar-se, dia após dia, frente às contorções de tantas datas. Comprar certas brigas, respeitando sempre aquilo que nos eleva a nós mesmos & que, por isso, nos leva leves aos outros. Por exemplo: não precisa ser pró-Cuba nem anti-Cuba para entender que esta noite milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo etc. Um folk, meu caro amigo, é um silêncio brutal, é um hesitar, evitando relações com gente de temperamento sórdido, quando os vermes da alta patifaria endinheirada dizem que “o que fazemos não presta, porque andamos com uma roupa sovada & o colarinho sujo”. Sim, eu sei éramos o tipo de garotos que não costumavam chorar, nem mesmo sobre pesados invernos onde cai pesada, dentro da sessão da tarde, a solidão. Creio que, para compor um folk, não é preciso estudar numa escola rural & depois ingressar num seminário. Não é preciso trabalhar como tipógrafo, nem ter morado em Petrogrado. Não são necessários arranjos florais ou oferendas, nem padrinhos ou projetos aprovados pelo ministério da cultura. Conversar com Mársias sobre possíveis parcerias, sim – afinal, as flautas! Não é preciso devorar a comida siciliana, mas vale muito a pena comer as mil cortesãs de Corinto. Não é preciso rodar as ruas & vielas do Rio, como um zumbi, trincando de bêbado, à caça de Luísa Porto, nem é preciso emular as extravagâncias de William Cannastra. Lembra-se quando falei sobre o sangue? Pois então, levemos Iessiênin para passear pela Praça da República: Adeus, amigo, sem mãos nem palavras etc., imagine um poetic gore movie, imagine as curvas no rosto da garota Podolski quando caligrafava & desenhava O país onde tudo é permitido. Para compor um folk, turvos de amores & horrores, observando andorinhas chocando balas de fuzil, nós, indecisos pobres ossos de nós mesmos, na arena dessa desgraça portátil, tendo ou não colhido tulipas negras ou dálias azuis, devemos compreender que o horror não nos divide, o horror nos cerca. Observar a precisão astronômica dos moai do Pacífico Sul & ter em mente que todas as regras de construção só são válidas para os poemas que são cópias de outros poemas. Por isso: caminhar, caminhar – sabendo que, quando a ave sangria cantar três mil vezes, entraremos no império do transe & do delírio, onde, diria um carbonário, o planeta entra na órbita do coração.
# De Nominata morfina, a sair.
Francine Van Hove
17/02/2012Francine Van Hove é uma pintora francesa e nasceu em 1942.
“A Ma Santé” (1995)
“Céline à la pomme” (1999)
“Chapitre XII” (1999)
“L’aigle séraphin” (1985)
“Le bel été au Luxembourg” (2000)
“Le Bouddha du Luxembourg” (2000)
“Le sèche-cheveux” (1984)
“Le soutien-gorge” (1985)
“Les verres” (1985)
“Liseuse” (1996)
“Pays de neige” (1984)
Noturno de São Paulo ou Uma ponte de beijos sobre o abismo da memória
27/01/2012O centrão de São Paulo reina, apesar das catástrofes. Penso isso enquanto ouço Roberto Bolaño ler seu poema “Los perros románticos” (“Mas naquele tempo crescer teria sido um crime / Estou aqui, disse, com os cachorros românticos /e é aqui que vou ficar”) em minha radiola portátil e caminho pela Duque de Caxias rumo à São João.
Ao cruzar a Conselheiro Nébias, lembro que perdi um país, mas ganhei um sonho. Não um sonho qualquer, barateado e penteado, mas um sonho espesso, de sabor forte, que alimenta a constante taquicardia de alguém que preferiu esquecer seus santos na seção de achados e perdidos.
Sigo. Os canteiros centrais da avenida são diariamente adubados com cachimbos de crack, restos de comida, guimbas e merda de gente. Ainda assim a cidade resiste. O ônibus segue para o Terminal P. Isabel e vai abarrotado com os esquecidos pela sexta economia do mundo. Ainda assim, a cidade.
O sinal abre. Escolho um velho disco do Uriah Heep. Juli gosta muito desse disco. Juli gosta desta cidade. Nem mil meandros da mente valem o sorriso de Juli. Desço a São João, entro à esquerda pela Ana Cintra – que é um nome bonito de rua –, até chegar à Paróquia Santa Cecília.
Uma vez, numa noite de inverno, um bêbado me disse que Santa Cecília é a padroeira dos músicos e que por isso vivia assobiando e olhando para o céu em busca dos ouvidos da santa. Paro diante do largo. Os fantasmas históricos andam na corda bamba das rotas de leitura. Depois das tempestades de verão que inundam tudo e deixam pelas calçadas uma garapa densa, com a qual os fantasmas históricos se batizam uns aos outros, apenas os cachorros mais fortes, os cães espartanos, perdidos e pelados, caçando comida e com medo, conseguem apreender a luz da lua dormente sobre o chumbo pesado das nuvens – e com seus corações pra explodir de tanto susto, cio e solidão crivam a noite com seus uivos operísticos. Para esses cães, todo gesto de solidariedade tem gosto de carne.
O largo está cheio de uma escuridão espessa e de fantasmas históricos reunidos à orla do último solilóquio dos suicidas. Eles sabem que a dor do centro da cidade tem a silhueta de grandes dinossauros e dura séculos. Caíram, mas caíram como valentes. Esta é sua grande e furiosa vitória. Ademais, a cidade não sorri pra qualquer um – o centro de São Paulo não é para principiantes. Desço a rampa da estação do metrô, repleta de pétalas roxas, e vejo Juli vindo, iluminando a vida. Como diria um poeta, assim acaba o tempo de silêncio, logo no início da eternidade.

# Crônica publicada originalmente na Revista da Folha (Folha de S. Paulo), no dia 22 de janeiro de 2012.
Sonic Boom Week Ou Meus bons amigos
23/01/2012Ser amigo é repartir a vida
Murilo Mendes
A semana que se passou (16 a 22 das chuvas deste janeiro) foi inesquecível. Uma autêntica semana da zoada sônica, varada por lançamentos, leituras & celebrações de amizade. Numa palavra: poesia. Poesia. Poesia. Poesia. Poesia. Poesia, essa palavra que reúne tanta poesia à sua órbita.
Todas as vertigens, todos os abraços & apertos de mão, todo o respeito, toda generosidade, toda a alegria de repartir a vida com aqueles que fazem tudo fazer todo o sentido, com aqueles que, conhecendo profundamente a mulher do fim do mundo, sabem por que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos. & foram noites aquáticas onde, na escola das árvores, estudava-se geometria & as raízes desdentadas mastigavam lodo, & os aqualoucos (videntes, desferrolhados & indecentes) contavam as estrelas no convés de sua destemida navilouca enquanto entoavam, todos juntos, a canção “Tryin’ To Get To Heaven”:
I’m going down the river
Down to New Orleans
They tell me everything is gonna be all right
But I don’t know what “all right” even means
I was riding in a buggy with Miss Mary-Jane
Miss Mary-Jane got a house in Baltimore
I been all around the world, boys
Now I’m trying to get to heaven before they close the door
Que eu, seguindo muitas sugestões das nuvens que falam (& que vêm lá de onde os olhos dos poetas têm telescópios, os sonhos têm mãos & pés & os oceanos foram seduzidos pelas sereias), traduzo calixtocausticamente assim:
Vou cruzar a fronteira do bairro
Até o Sítio dos Vianas
As pessoas sempre dizem que tudo vai ficar bem
Mas eu não sei o que diabos “ficar bem” significa
Estava dando um rolé de fuca com Camila Sativa
Camila Sativa tem uma casa na Vila Alzira
Eu estive em todos os lugares deste mundo, trutas
Agora estou tentando me mandar para o céu antes que fechem a porta
Na terça-feira, eu & Juli (meu amor, minha cúmplice, meu par na contramão) caminhamos pelo centro apagado (após o estouro de um transformador subterrâneo na Santa Cecília) até o Club Noir, na rua Augusta, onde houve o lançamento do belo livro De pé sobre a língua, do poeta belga Antoine Wauters, em tradução de Juliana Bratfisch (minha amiga tradutora a quem eu diria, agora, nesta segunda-feira de um quase-sol, que a tarde certamente estará competente para dálias, calêndulas, crisântemos & nenúfares). Além do lançamento, houve leituras de poetas tradutores de poetas: eu, Dirceu Villa, Ricardo Domeneck, Mario Sagayama & a própria Bratfisch. Não preciso dizer que foi duca (duca pra dedéu!), afinal, tem sangue eterno a asa ritmada. A noite foi, além de palco para um evento mui charmoso & bem-vindo a nós todos que amamos amar a poesia, de reencontros. Lá estavam Rui Camargo (o futuro diplomata que adora filmes tchecos da primeira metade do século XX, legendados em russo & vistos on-line em sites de Burkina Fasso), o Danilo Bueno (poeta que acaba de lançar o ótimo Dia útil (Lumme, 2010)), o Ale Souza, o Leo Gonçalves, a Juliana Amato. E, claro, Ricardo Domeneck, esse sujeito talentosíssimo que deu um sacode bom na poesia brasileira contemporânea & que edita comigo (mais Angélica Freitas & Marília Garcia) a revista Modo de Usar & Co. Depois de seis anos, foi muito legal vê-lo descendo do táxi na porta do pub com um elegante sobretudo – o que me fez lembrar de Torquato Neto (outro grande poeta) numa foto de 1969 na Whitechapel Gallery, em Londres, em que o poeta está no penetrável PN2 (1966) “Pureza é um mito”, da magistral & ousada Tropicália de Hélio Oiticica. Quando lembrei dessa foto, quase pude imaginá-lo, Domeneck, gritando para toda a cidade: “vamos, bicho: desafinar o coro dos contentes!”. Conversamos e, entre um drinque & outro: a tradução de Pound, revistas de poesia, ensaios críticos que dão vergonha alheia de tão burros, Álvares de Azevedo, poesia francesa, Orlando Parolini, o preço do aluguel, filmes de terror B, cigarros & cervejas lager. Um reencontro bonito. & o que são as palavras reencontro & bonito senão dois lados da mesma viagem?
Na quarta, debaixo de uma baita tempestade, foi a vez do lançamento do excelente Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012), novo livro de poemas do Domeneck. Acho que nunca aquele “Quem faz um poema salva um afogado”, belíssimo & citadíssimo verso do grande Mario Quintana, fez tanto sentido quanto nesta noite de lançamento & leitura na Livraria da Vila da Fradique. Com um público respeitável, Veronica Stigger (que apresentou um texto genial), Fabiana Faleiros (que entoou um memorável funk dentre um de seus poemas), Dirceu Villa (que fez outra de suas ótimas apresentações), Ricardo Domeneck (que disse alguns de seus novos & instigantes poemas) & eu lemos nossos trabalhos mais recentes ou inéditos. A leitura foi magnífica & mui divertida (além de concorrida) – fios de sol de dizeres de poetas iluminando tudo & todos. Foi muito legal rever os amigos da leitura anterior & outros que foram apenas neste segundo furdunço – como o grande poeta & grande amigo Helio Neri (autor de um dos livros de poesia que mais gosto, o Palavra insubordinada, lançado ano passado), que se deslocou, via trem de subúrbio (linha turquesa), de lá de Santandré (ABC paulista), direta & especialmente para esse lançamento (um salve, mano Helinho!). Marcelo Ferreira de Oliveira & Roberta Ferraz igualmente estavam lá. & ainda o Eduardo Sterzi, o Fabio Weintraub, o Fabio Camarneiro, o Iuri Pereira, o Barba & a Caru. Dizem que o Roberto Zular também estava presente, mas até agora não há provas concretas – o que me fará contatar o perspicaz Gil Grissom para investigar o caso. Debaixo de chuva & de uma salva de palmas (seguida de uma salva de arrepios), a noite imprimiu seu sépia na memória de todos que ali fizeram presença. Evoé!
Na quinta, apossei-me de minha radiola portátil & fui caminhando pelo centro da cidade. Passei pela rua Aurora, onde Mário de Andrade queria que seus pés fossem enterrados, & pela Praça da República (onde me lembrei de Roberto Piva & de Álvares de Azevedo, cuja estátua eu sempre procuro por entre a paisagem de morfina). Adentrei a boca do metrô &, ouvindo o Kill’Em All (1983), brilhante disco de estreia do Metallica, segui, estação a estação, até a Conceição (seria aquela que vivia no morro a sonhar coisas que o morro não tem?). A viagem foi causdiquê o Sir Dirceu Villa, com toda sua gentileza & elegância já conhecidas nos quatro cantos deste país, convidou alguns amigos para uma boa duma prosa em sua casa. Estávamos lá Ricardo Domeneck, Rui Camargo, Juliana Bratfish & Flávio Rodrigo Penteado (também conhecido pela alcunha Driguetes; aliás, o Driguetes é um sujeito que é quase tão fanático pelo poema “Acrobata da dor”, do nosso genial Cruz e Sousa, quanto eu), & este que escreve estas bem digitadas linhas – além, é claro, dos generosos & gentilíssimos anfitriões, Villa & Andrea Mateus. Uns deliciosos petiscos & as salsas maestras feitos pela senhorita Andrea acompanharam nossa prosa sobre poesia, política, filmes, cidades invisíveis & paixões arrebatadoras. Aproveitamos, ainda, para gravar uns vídeos para o projeto Empreste sua voz a um poeta morto & outras cenas mais – que, em breve, estarão devidamente publicadas. Foi nesta noite muito agradável, ao som da sinfonia braba dos trovões, que nós nos despedimos de Domeneck & sua explosiva passagem por São Paulo. O poeta ainda segue para o Rio, para mais lançamentos & leituras, antes de se mandar para Berlim. Daqui de longe, torço pelo sucesso da parte carioca da Domeneck Brazilian Tour’2012. (Abraço forte, meu amigo).
Na sexta, eu já estava só o bagaço & novamente às voltas com a fase final de minha dissertação de mestrado. A labuta acadêmica é diária & isso nós que nos metemos nessas encrencas sabemos bem. Também comecei a esboçar meu projeto de doutorado (agradeço ao Rui pela excelente sugestão) / (agradeço também ao Sergio Cohn pela extrema gentileza de me mandar um material valiosíssimo). Reuni mais algumas dores de cabeça na caixinha de joias, comi um pedaço de gesso acompanhado de suco de cal para brecar a violenta vontade de fumar & à noite, para arejar a mente, eu & Juli passamos o tempo contando piadas um para o outro até o sono chegar.
No sábado mandei uma tradução que fiz de “Orgasmatron”, do Motörhead, para o meu amigo & talentosíssimo desenhista Diego “Frango” de Sousa, que fará uma adaptação para HQ. O Frango prometeu arrebentar a boca da matilde & vindo da boca dele, eu acredito. Além disso, terminei mais um capítulo de meu primeiro romance, Febre do rato.
Domingo, para fechar a semana, fiquei deveras feliz que saiu uma crônica minha dedicada ao centro de São Paulo na Revista da Folha. À tarde, eu, Juli & Patricia Augusta Corrêa demos um pulo no Vale do Anhangabaú – no caminho, passamos pelo prédio onde ficava a saudosa Woodstock Discos, um dos meus pontos de curtição preferidos nos anos 80 & um nó na garganta se fez de pronto & eu, de bate-pronto, o engoli. No Anhangabaú nosso intento foi ouVer o ensaio aberto do Bloco Afro Ilú Oba De Min, que em breve desfilará sua força rítmica pelas noites de carnaval da cidade. & assim o fizemos. & foi muito muito legal! & ali no rio do mau espírito, pelo que pudemos comprovar, só tinha sangue bom. Pierrôs, colombina & arlequins de todo mundo, uni-vos!
Uma semana inesquecível, sim! Um lugar onde a celebração da amizade queima intensamente sua chama viva & de sua combustão toda a energia necessária que nos impulsiona, que nos anima a levantar todos os dias, que nos faz escrever, amar & viver da melhor maneira que pudermos – afinal, como bem sabemos, a vida é curta para ser pequena.
Pois é, a vida, ah vida! Sobre essa instância crua, alça de tripa & metal, Fernando Pessoa, abraçado pela camisa suada de Álvaro de Campos, diria que
de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
Foi aí que a noite chegou novamente. Em casa, eu & Juli esparramados na cama & ao som de mais uma chuva. A noite de domingo foi nossa merecida pausa – afinal, à exceção do Tony Stark, ninguém é de ferro.
***
Para essa inesquecível semana da zoada sônica & para os meus queridos amigos: Smashing Pumpkins, com “1979” – uma canção linda para dias incríveis.
Mas ouça: na lousa da noite os grilos vão deixando reticências
21/01/2012Não conheço a Poesia Incompleta – nº 11 da Rua Cecílio de Sousa, em Lisboa. Gostaria – ter contato com bravuras nos incensa a vida. Não conheço pessoalmente o Changuito – apenas troquei um ou outro e-mail com este sujeito bacana que diz que “há editores maravilhosos, uns assim já para o assado, e outros militantemente merdosos”, acertadamente. A Poesia Incompleta é a única livraria só de poesia de Portugal. Não conheço nenhuma outra no mundo. Vendo a batalha, lendo suas palavras, não me paira nenhuma dúvida sobre a poesia que lhe habita. Das derivas pelo mar virtual, a entrevista que vai abaixo – surrupiada ao blog português Tantas Páginas. Vamos à entrevista que fez mais feliz este sábado chuvoso no centro de São Paulo. Agora, respeitável público, com vocês: Changuito:
Como é que lhe surgiu esta ideia, a priori um tanto louca, de uma livraria exclusivamente dedicada à poesia? Inspirou-se nalgum caso que tenha conhecido no estrangeiro?
A ideia surgiu da necessidade, enquanto leitor, de encontrar livros que não encontrava noutros lugares. Loucura parecia-me não o fazer. A poesia, creio que só suplantada pelo teatro, é o que dizem ser menos vendável, mas, que diabo, há sempre gente que se vai interessando. E, felizmente, não falo só de pessoas dos meios literário-académicos. Ouço e leio, muitas vezes, que só no meio há leitores. Tenho encontrado casos vários que contrariam esta ideia. Leitores que estão a começar bibliotecas, gente que constantemente está a fazer dezoito anos e que tem margem de encantamento; outros, que estarão a meio da sua vida, e se acostumaram a ler poesia, a viver com ela nos intervalos da prosa; felizmente, outros ainda, com setenta, oitenta ou noventa anos que continuam procurando aquele livro que tiveram e já não têm, ou que procuram poetas novos. Sabia da existência de algumas, mas não conhecia fisicamente nenhuma.
Pode tentar definir o público da Poesia Incompleta?
Na resposta acima está a definição menos má que me ocorre.
Já agora, porquê Poesia Incompleta?
Estive indeciso entre dois nomes: Poesia Incompleta ou Poesia Toda. O segundo, obviamente, por homenagem a Herberto Helder. Acabei por escolher o primeiro por achar mais acertado. Nem que todo o dinheiro do mundo me viesse parar às mãos, e com ele eu pudesse comprar todos os títulos de todos os catálogos que me interessam, e mesmo que o doutor Cavaco me oferecesse o Estádio Nacional, esta ideia de livraria ficava completa. Depois, na incompletude encontro um certo encanto. E o livro que reúne a obra poética de Mário Dionísio chama-se Poesia Incompleta.
A sua actuação promocional na net é bastante intensa. Que peso representam na economia da sua livraria as vendas à distância?
Sinceramente, não faço ideia.
É conhecido no meio por ser um livreiro de «boas contas», pagando aos fornecedores a pronto. A poesia é um bom negócio?
Instituiu-se uma estranha prática em Portugal, pelo que me dizem os editores: livrarias que não pagam a editoras. Acho estranho. As boas contas, para mim, são o normal. Regra geral, com os descontos em Portugal, se vendo um livro de 10€, só 3€ é que ficam para a livraria. Tenho, em quase todos os momentos, isso bem presente na cabeça. Esta livraria é um óptimo negócio: não tem dívidas a fornecedores, nem impostos em atraso. Por outro lado, é assente na mais estúpida das premissas: o senhor da limpeza, o telefonista, o livreiro, o gerente de compras, o director de conteúdos para a internet, o publicitário, o agente de ligação com a imprensa, com editoras, até com alguns membros do poder político, é o mesmo e não recebe salário.
A sua relação com a poesia, além da de leitor e livreiro, passa também por dizê-la em público. Que importância atribui a essa actividade no mundo da poesia? Trata-se de divulgação ou (re)criação? Uma prática lateral e periférica ou central? Dizer um poema é interpretá-lo, em sentido forte?
Não sei que importância tem ou se não tem nenhuma. Sei que há poetas que não suportam ouvir os seus poemas ditos e outros que gostam. Uns que, ao lê-los em público, os melhoram e outros que os assassinam. Acho que pode haver divulgação, sim, e (re)criação. Depende de quem o faz e, sobretudo, parece-me, depende mais ainda de para quem a leitura é feita. Gosto de ler em voz alta. Há um prazer nisso, em sentir a língua como coisa viva, audível, plástica, moldável.
Como diseur, de que modo se situa em relação às duas grandes referências históricas em Portugal, João Villaret e Mário Viegas? Além destes, houve algum outro performer de poesia que o tenha marcado?
Além de gostar muito de ouvir o Mário, e de achar brilhantes as leituras de Maria do Céu Guerra de Fernando Pessoa, Alexandre O´Neill, David Mourão-Ferreira, João Pedro Grabato Dias (nota de declaração de interesses: a supra citada é a minha querida mãezinha), parecem-me definitivas as gravações que Luís Miguel Cintra fez de Ruy Belo. Às vezes tenho saudades de ouvir Joaquim Castro Caldas, já morto, António Poppe e a sua jukebox de emaranhar poemas, ou Nuno Moura lendo as suas Letras Para Dance Music. Mas há muita gente que ilumina o que lê, que me parece ser a principal função de quem o faz publicamente. Alguns casos: Richard Burton lendo Gerard Manley Hopkins e John Donne; Chico Anysio lendo Ascenso Ferreira. Autores como Mário Cesariny, Dylan Thomas, Jorge Luis Borges, Gertrude Stein, León Felipe, Allen Ginsberg, Antonio Cicero, Sylvia Plath, Herberto Helder, entre outros, lendo-se trazem claridade ao meu entendimento. Muito frequentemente ouço e volto a ouvir Galáxias, de Haroldo de Campos, o livro milagre do qual ele gravou, creio, 16 faixas/poemas. Mas, creio, a memória mais antiga de ouvir alguém que não me era próximo a dizer-se terá sido, aos dezoito ou dezanove anos, João Cabral de Melo Neto. A poesia dele pareceu-me imediatamente mais compreensível.
Que palavra prefere para descrever essa actividade? Leitor, recitador, declamador?
Não tenho preferências, se a pessoa o fizer bem até lhe pode chamar hóquei em campo.
Também vende discos de poesia?
Sim, em várias línguas.
Até onde vai a latitude da sua noção de poesia? Até à poesia sonora e experimental? Até às «letras de canções»?
Sim, claro. Para mim, ouvir um texto dadaísta, um poema experimental ou sonoro, ou mesmo, em certas ocasiões um poema concreto, faz com que essa arte anotada, ou apenas sugerida no papel, às vezes só como um enigma gráfico, ganhe uma outra força, bem maior, mais reveladora mas não menos misteriosa, tornando assim a minha experiência como ouvinte mais completa do como leitor silencioso. Em todas as casas portuguesas-sem-certezas se devia ouvir Kurt Schwitters. João Gilberto – só com o tratamento que dá a cada sílaba -, e com as suas letras, Caetano Veloso, Linhares Barbosa, Jacques Brel, Noel Rosa, Amália Rodrigues, Cole Porter, Fausto Bordalo Dias, Chico Buarque, fizeram mais pela poesia do que tantos poetas cujos nomes agora não recordo.
No mundo da poesia muitas vezes os livreiros fazem também uma perninha na edição. É o seu caso?
Tive a sorte de três amigos, radicalmente diferentes, me permitirem editar três livros, também eles muito diferentes entre si. O primeiro de Miguel Martins, o segundo de Manuel de Freitas, e o mais recente de António Barahona. Por questões económicas, é uma actividade secundária, nesta livraria. Mas, ainda assim, feita com amor e alguma teimosia. Os livros não são distribuídos. O único ponto de venda é aqui.
Tem um iPad? E Kindle? Como vê o futuro do livro de poesia em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata?
Nem um, nem outro. Tive cães e gatos a que podia ter chamado kindle ou ipad, mas agora acho que já vou tarde. Parece-me que os leitores de poesia, como os espectadores de futebol gostam de ir aos estádios, terão sempre prazer em ter um livro, folheá-lo, marcá-lo, emprestá-lo. Será, parece-me que já o está a ser, uma realidade que alterará o comércio das bestas céleres (para usar um termo de Alexandre O´Neill). O livro passará a ter um trajecto diferente e que pode não passar sequer por livrarias em linha. Pode ir directo de editores a leitores. No entanto, acho que os livros como os de poesia, bem como as livrarias especializadas, sejam elas quais forem, terão vida longa. Mais rapidamente vejo os grandes retalhistas a sofrerem com as livrarias em linha, e a terem de modificar as suas estruturas, do que fechar uma grande livraria de viagens, de livros policiais, de arte ou de poesia. Vejo, por exemplo, o Rui Pedro Lérias, da Loja de História Natural, falar dos livros que vende com uma intimidade que não encontro paralelo em lado nenhum. Ouço qualquer das pessoas que compõem o magnífico trio da Letra Livre e penso que com eles posso ficar a saber alguma coisa do muito que eles sabem. Passa-se o mesmo com o Luís Gomes, da Artes & Letras, um navio ancorado no Largo Trindade Coelho, disfarçado de livraria.
Como vê fenómenos como a «associação» entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora, a crise de editoras de perfil mais literário e exigente, ou a deslocação da edição de novos poetas para micro-editoras como a Mariposa Azual, a Averno, a Língua Morta ou a Tea for One?
Se com essa associação a Assírio tiver a vida ligeiramente mais facilitada, louvemos o senhor Teixeira. Se, ao fim de uns tempos, a Porto deixar de perceber o que tem nas mãos ou quiser transformar a vocação da Assírio noutra coisa, aí o quadro ficará mais triste. Que a Leya, com seus geniais gestores de produto, deixe esgotar Manuel Gusmão, Luís Miguel Nava, Antero de Quental, António Nobre, para falar só de alguns, e não re-imprima é, para mim, incompreensível. Já não falo pela questão da qualidade literária, ou da necessidade de uma construção de um cânone. Mas, de forma mais cínica, pela possibilidade de terem em mãos produtos de vida e venda longas. A crise é naturalíssima, se pensarmos que editoras médias, com um frequente ritmo de edições, empregadoras de várias trabalhadores, que têm gastos com gráficos, tradutores, direitos, com despesas grandes de tipografia, boas pagadoras de impostos, têm permanentemente livrarias e distribuidoras não pagando os livros que encomendam. Dito assim, não me parece muito complicado de entender. É claro que há políticas culturais que podem ser levadas a cabo que ajudem a criar ou a melhorar a relação das pessoas com o livro e com o seu consumo, como com a arte em geral, mas por muito que essas políticas existam, nenhuma editora sobreviverá se os livros lhe não forem pagos. Sobre a circulação ser restrita, bom, não sei ao certo, mas parece-me que a arte, mais concretamente a literatura, mais especificamente a poesia foram, são e serão sempre matérias de interesse marginal. Por marginal, aqui, quero dizer só pouco central. Se pensarmos que quase metade da população do mundo não tem acesso a água, aí sim, aí falamos de um problema central. Se falarmos de fome, de saúde pública, de desemprego, continuamos em assuntos centrais. Mas por estes, mais laterais, parece-me, houve sempre uns quantos, não muitos, que se interessaram. Há um poema de Wislawa Szymborska que fala disso lindamente. Não é mau, nem bom. Ninguém parece espantado ou incomodado pelo facto de o aeromodelismo ou a numismática não serem diariamente capas de revista. Que esperamos de um escritor ou de um editor sério? Que apareça nu nas páginas centrais de um jornal? A literatura, com tudo o que a rodeia, a escrita, a rasura, a maturação e, no último momento, a edição, não pode ser um jogo de abrir e fechar pernas, de aparecer semi-vestido, revelando carecas, brincos ou tatuagens, só para vender mais uns livros. Desde a Grécia, disse-me gente sábia, que se fala na crise do teatro. Mal ou bem, o teatro continua sendo feito e visto. O mesmo se passa e passará com a poesia, a sua edição e o seu consumo. Micro-editoras é um termo curioso, não sei se justo, e que revela mais quem dele fala do que quem o faz. A Mariposa Azual imprime 300 exemplares, às vezes 500 exemplares, de uma primeira edição. Se compararmos com as inglesas Faber & Faber ou a Penguin, ou as espanholas Visor ou Hiperión, que, às vezes, imprimem 1000 exemplares, não me parece uma tão grande desproporção. Pelo contrário, acho até estranho primeiras tiragens portuguesas assim. A & etc fez, há mais de trinta anos, de vários títulos, tiragens de 1200 ou de 1000 exemplares. Com as suas razões, Vítor Silva Tavares, mestre dos mestres, foi reduzindo os números. Se a 50kg, a Artefacto, a Averno, a Black Sun, a Língua Morta, a Tea For One, ou a & etc, entre outras, fizeram ou fazem tiragens reduzidas é por, felizmente, terem percebido que vale mais esgotar um livro do que deixá-lo apodrecer num armazém ou guilhotiná-lo. Parece-me uma visão inteligente, ponderada, de alguém que conhece o espaço que têm livros como os que editam na maior parte das livrarias. Há interesses, cumplicidades, visões do mundo que aproximam ou não as pessoas, como em qualquer outra actividade. Se um tipo tem uma editora e edita um autor que lhe parece bom e se a isso se junta uma afinidade entre ambos, melhor. Não é necessário que assim seja, mas é saboroso.
Como perspectiva o actual panorama do mercado livreiro, da distribuição ao circuito de venda?
Há editores maravilhosos, uns assim já para o assado, e outros militantemente merdosos. No sector da distribuição, tirando a Dinalivro, não conheço nenhuma distribuidora portuguesa que funcione bem. Em relação às vendas, tirando uma ou outra livraria a que vou com vontade e gosto, faço uma via crucis semestral para me horrorizar. Lembro-me sempre dos versos de Sá de Miranda que dizem M´espanto às vezes, outras m´avergonho.
Como vê a situação da crítica de livros de poesia na imprensa hoje, e sobretudo que análise faz da evolução da situação de há algumas décadas a esta parte?
Antes um Gaspar Simões no papel, do que dois cortezes pelo ar.
Recebe muitos poetas na sua livraria? Os poetas compram livros? Quem compra mais: os poetas ou os críticos?
Os poetas, alguns, sim, visitam a livraria, compram, perguntam, sugerem, encomendam, ensinam. Os críticos são pessoas atarefadas, têm vidas, colóquios, artigalhada, tirando um ou outro, nunca cá entram. E, parece-me, não precisam. Recebem livros de oferta. Soube de um, há pouco tempo, que se queixava de ter poucos livros oferecidos. Também, creio que ser justo não esquecer, os poetas portugueses (já sobre isso escreveu acertadamente Nuno Moura) são todos, ou quase, ricos, riquíssimos, com reformas douradas, regalias do Pen Clube e do Automóvel Club de Portugal. No que concerne aos críticos, ou à sua maioria, é gente que escreve para comer, com toda a dignidade e pressa que isso acarreta.
Somos mesmo um país de poetas?
Não, deus nos livre. Ou sim, somos um povo de poetas, quase na mesma medida em que somos também um povo de taxistas com vocações pedagógicas, empregados de mesa filosofantes, carteiristas desconfiados, deputados semi-analfabetos, administradores sem pasta com pasta. Habitantes com vantagens e desvantagens, como os ornitorrincos ou os mocassins. Temos um admirável território, pequeno mas pouco problemático, um rectângulo onde, ainda e apesar de tudo, tanto se pode fazer um país ou, hipótese também divertida, construir um atol para experiências nucleares.
Lovely Laurie
12/01/2012Em 2008, vi um belíssimo concerto de Laurie Anderson no Sesc Pinheiros. Era o concerto-poema Homeland passando pelo Brasil. Naquela noite eu tive a maravilhosa sensação de ter realmente assistido a uma grande performance artística. Algo realmente espetacular. E raro. Não saí ileso de dentro daquele poema. Chegando em casa traduzi a peça “Only An Expert” – que foi publicada anteriormente n’O Almanaque Lobisomem e, depois, na revista Modo de Usar & Co. (da qual sou um dos editores). Republico aqui.
Laurie Anderson
OS PERITOS
Hoje em dia, só um perito pode resolver um problema.
Porque metade do problema é perceber o problema.
E só um perito pode resolver um problema.
Só um perito pode resolver um problema.
Então, se não houver um perito para resolver o problema
De fato e realmente é um duplo problema.
Porque só um perito pode resolver um problema.
Só um perito pode resolver um problema.
Agora, na América, nós gostamos é de soluções. Gostamos de soluções para problemas. E há tantas empresas que oferecem soluções. Empresas com nomes como: A Solução Animal, A Solução Capilar, A Solução Corda-no-Pescoço, A Solução Mundial, A Solução Corrupção, A Solução Sushi.
A Solução Corda-no-Pescoço… Não há dúvida, só um perito percebe: há um problema.
E estas empresas são a solução a postos, prontos para resolver problemas.
Porque só um perito pode resolver um problema.
Só um perito pode resolver um problema.
Veja só: digamos que convidam você para o programa da Oprah, e você não tem um problema, mas você quer ir ao programa, então você precisa urgentemente de um problema!
Aí você resolve inventar um problema. Mas se você não for um perito em problemas, provavelmente seu problema não será um problema plausível. Então é provável que o desmascarem. Você ficará exposto e terá que se ajoelhar, se redimir e implorar o perdão público. Porque só um perito sabe onde há um problema.
E só um perito pode resolver um problema.
Só um perito pode resolver um problema.
E nesses programas que tentam resolver seus problemas, a grande questão é: como manter o controle? Como posso ter o controle? Mas, jamais esqueça, essa é uma pergunta ao telespectador mediano, o sujeito comum, em série, ingênuo, que apenas se defende. Um sujeito que vê programas sobre gente com problemas, um sujeito que é um dos 60% da população da América, que está meio-cheque da completa indigência. Em outras palavras…
uma pessoa com problemas.
Então, quando os peritos dizem vamos direto à raiz do problema, que tomemos as rédeas da situação, porque se você tomar as rédeas da situação, você até pode resolver o problema. A maioria das vezes, entretanto, isso não funciona, porque a situação está completamente fora do controle.
Porque só um perito pode resolver um problema.
Só um perito pode resolver um problema.
E só um perito pode resolver um problema.
Então, mas quem são estes peritos? Veja lá, os peritos são pessoas autonomeadas, ou eleitas, ou especialistas em vendas, pós-doutoradas ou autodidatas, centradas em coisas que podem ser infalivelmente diagnosticadas como problemas.
Mas o perito é alguém que estuda o problema e tenta resolvê-lo. O perito é alguém que contrata um seguro contra a imperícia. Porque muitas vezes a solução torna-se…
o problema.
Pois: só um perito pode resolver um problema.
Só um perito pode resolver um problema.
E só um perito pode resolver um problema.
Às vezes os peritos buscam armas. E, às vezes, peritos procuram por armas em toda parte. Às vezes, quando o perito não encontra arma alguma, pode acontecer de um outro perito dizer: não encontrar arma nenhuma não significa que não existem armas. E outros peritos que procuram armas encontram coisas como fluidos de limpeza e imãs de geladeira. E dizem: essas coisas podem ser simples objetos para vocês, mas, em nossa opinião, podem ser armas. Ou podem ser usadas para fazer armas. Ou poderiam ser usados para transportar armas. Ou para armazenar armas.
Porque…
só um perito pode lidar com armas.
Só um perito pode resolver um problema.
E só um perito pode resolver um problema.
Você sabe que às vezes está muito muito muito quente, e é julho em janeiro, e não há mais neve, e tempestades afogam as cidades, e todo mundo sabe que isso é um problema. Me se alguns peritos dizem que não é um problema, e outros peritos afirmam que não há problema ou explicam o porquê de não ser um problema, então simplesmente não é um problema.
Mas quando um perito diz que é um problema e faz um filme sobre o problema e ganha um Oscar© com seu filme sobre o problema, então todos os outros peritos têm que concordar que é, muito provavelmente, um problema.
Porque só um perito pode resolver um problema.
Só um perito pode resolver um problema.
E só um perito pode resolver um problema.
E mesmo que um país possa invadir outro país e trucidá-lo e arruiná-lo e fomentar a barbárie e a guerra civil e famintos, mortos e refugiados, e se os peritos dizem que não é um problema e se todos concordam que eles são peritos e são bons em resolver problemas, a destruição desses países e sua população simplesmente não é um problema.
E se um país tortura pessoas e prende os cidadãos sem acusação ou julgamento e cria tribunais militares, isto tampouco é um problema. A menos que haja um perito que diga que é o começo…
de um problema.
Porque só um perito pode resolver um problema.
E só um perito pode resolver um problema.
E só um perito pode resolver um problema.
LAURIE ANDERSON
# Tradução: Fabiano Calixto
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Escrito por Fabiano Calixto 











