O centrão de São Paulo reina, apesar das catástrofes. Penso isso enquanto ouço Roberto Bolaño ler seu poema “Los perros románticos” (“Mas naquele tempo crescer teria sido um crime / Estou aqui, disse, com os cachorros românticos /e é aqui que vou ficar”) em minha radiola portátil e caminho pela Duque de Caxias rumo à São João.
Ao cruzar a Conselheiro Nébias, lembro que perdi um país, mas ganhei um sonho. Não um sonho qualquer, barateado e penteado, mas um sonho espesso, de sabor forte, que alimenta a constante taquicardia de alguém que preferiu esquecer seus santos na seção de achados e perdidos.
Sigo. Os canteiros centrais da avenida são diariamente adubados com cachimbos de crack, restos de comida, guimbas e merda de gente. Ainda assim a cidade resiste. O ônibus segue para o Terminal P. Isabel e vai abarrotado com os esquecidos pela sexta economia do mundo. Ainda assim, a cidade.
O sinal abre. Escolho um velho disco do Uriah Heep. Juli gosta muito desse disco. Juli gosta desta cidade. Nem mil meandros da mente valem o sorriso de Juli. Desço a São João, entro à esquerda pela Ana Cintra – que é um nome bonito de rua –, até chegar à Paróquia Santa Cecília.
Uma vez, numa noite de inverno, um bêbado me disse que Santa Cecília é a padroeira dos músicos e que por isso vivia assobiando e olhando para o céu em busca dos ouvidos da santa. Paro diante do largo. Os fantasmas históricos andam na corda bamba das rotas de leitura. Depois das tempestades de verão que inundam tudo e deixam pelas calçadas uma garapa densa, com a qual os fantasmas históricos se batizam uns aos outros, apenas os cachorros mais fortes, os cães espartanos, perdidos e pelados, caçando comida e com medo, conseguem apreender a luz da lua dormente sobre o chumbo pesado das nuvens – e com seus corações pra explodir de tanto susto, cio e solidão crivam a noite com seus uivos operísticos. Para esses cães, todo gesto de solidariedade tem gosto de carne.
O largo está cheio de uma escuridão espessa e de fantasmas históricos reunidos à orla do último solilóquio dos suicidas. Eles sabem que a dor do centro da cidade tem a silhueta de grandes dinossauros e dura séculos. Caíram, mas caíram como valentes. Esta é sua grande e furiosa vitória. Ademais, a cidade não sorri pra qualquer um – o centro de São Paulo não é para principiantes. Desço a rampa da estação do metrô, repleta de pétalas roxas, e vejo Juli vindo, iluminando a vida. Como diria um poeta, assim acaba o tempo de silêncio, logo no início da eternidade.

# Crônica publicada originalmente na Revista da Folha (Folha de S. Paulo), no dia 22 de janeiro de 2012.
[...] Calixto publicou domingo na Revista da Folha por ocasião do aniversário de SP. Leia aqui. O Fabiano tem um blog chamado Meu pé de Laranja Mecânica e há dois anos trocou Santo André [...]
se essa crônica tivesse sido publicada no dia 25/01/12, dia do aniversário dessa maluca cheiradora de sampa, eu acharia a crônica mais perfeita do universo. ahahahahaha, orgulhinho da tia, você, seu bonito!
Uriah Heep!
Que bonito isso …
Essa forma como vc trata seu amor por Juli é comovente. Valeu poeta !